Instituto Hypnos

sexta-feira, março 10, 2006

Da Inconsciência de Massa ou Sobre o Exílio do Lógos.


Não há necessidade de grande erudição para se perceber o quanto consciência e lucidez podem aproximar-se da barbárie e da anomia. Muito antes de Adorno afirmar em seu "Educação após Auschwitz" que toda civilização gesta em si algo de barbárie, vê-se bem o quanto aqueles que arrogam a justa leitura de seu tempo podem afastar-se dos primeiros motores de suas ações e desembocarem no finalismo que cega.

O assunto ao qual nos remetemos e as pessoas das quais falamos aqui é a invasão e destruição dos laboratórios e dos frutos das pesquisas da Aracruz no estado do RS empreendida por pessoas vinculadas ao MST, mas não só. O que queremos discutir é o esforço por legitimar essas ações a partir de uma pretensa abertura a elas dada pelo não cumprimento, por parte do Estado, de suas responsabilidades perante aqueles reclamantes.

Ora, a aproximação crítica demonstra claramente o quadro de total desespero frente às incontáveis atitudes furtivas do Estado em findar, de uma vez por todas, problemas como o da reforma agrária e seu imenso corolário. Assim, depois de décadas de vanidades - manifestas nos diálogos e nas promessas nunca efetivadas - chega-se ao ponto onde tal desrespeito e violência teriam, como única forma de resistência a tal Estado, uma força e uma postura igual ou maior, que expressasse a oposição por parte daqueles tantas vezes enganados.

Assim, atingimos o cerne de nossa questão: a violência e a barbárie do Governo, traduzidas pelo total desprezo pelas questões que tangenciam o próprio sentido do humano ao negar praticamente as condições de sobrevivência àqueles que vivem da terra justificam e, talvez, até endossam, a ação igualmente destruidora e cruel de ações carregadas de terror como a empreendida no último dia 8 de março?

No limite, nem os milhões de dólares de prejuízo estimado ou os 50 mil empregos diretos ou indiretos gerados pela empresa depredada e que podem ser afetados importam tanto quanto os possíveis princípios que suportam tais ações. Em entrevistas e pronunciamentos, líderes e sua massa comandada elencaram em seus discursos, argumentos ambientais e econômicos que poucos nos interessam pois tão pequena é sua relevância frente à magnitude dos atos de destruição e, principalmente, porque o que estas ações albergam é muito mais do que posturas altivas e redentoras do amado solo da Terra Brasilis. Como dissemos, a postura defendida nesta maneira sórdida de agir é que a negligência, o descaso e a violência podem arrastar-se até o ponto de apenas elas mesmas se apresentarem como respostas aos problemas por elas causados.

O que aqui se opera é uma bizarra inversão do princípio já expresso na sabedoria hipocrática de que o remédio - phármakos - quando utilizado em excesso torna-se veneno - phármakon. Assim, aqueles acabam por defender que o veneno, instilado à exaustão pode, em determinado ponto da história, reverter-se e apresentar-se não só como remédio, mas como o único bálsamo para aliviar as dores daqueles que sofrem. Cumpre aqui lembrar uma simples, mas grandiosa citação de Albert Camus, filósofo franco-argelino em seu O homem revoltado: se os fins justificam os meios, o que justifica os fins? E perdemo-nos todos numa ciranda funesta onde uma das maiores capacidades da alma humana - a crítica racional e dialógica - esvai-se de braços dados com o juízo acerca da unidade do gênero humano enquanto corpo que padece junto, de uma existência por vezes tão triste e frustrante.

Apresentam-se então outros aspectos à luz de nossa reflexão. A violência e a destruição que rebaixam e condenam o humano ao sofrimento, não podem alinhar-se, sob nenhum pretexto, ao serviço de uma falsa libertação e uma falsa promessa de felicidade. Falsas porque mentem a si próprias no momento mesmo de efetivação dos atos que instigam pois comprometidas com o que deveriam vencer e escravas daquilo que deveriam se libertar. Tal falácia ainda incorre no perigo de depor uma camada generosa do verniz de validade e de legitimação cujo brilho ofusca a massa ainda habitante da caverna, a tal ponto de poderem não só se proclamarem como arautos de valores perenes quanto que as futuras gerações ainda agradecerão por serem preservados daquela forma, como declararam alguns.

Este texto não tem maiores pretensões, salva a de suscitar reflexão, questionamento e embate de idéias; elementos exilados pela parca visão daqueles que se pretendem humanos ainda que agindo bestialmente.

G.F.