::: Filme - Big Fish :::


O filme não é propriamente novo - é de 2003 - mas, ao menos para mim, acabou por passar despercebido nas prateleiras repletas de filmes com acontecimentos caóticos, atores e atrizes no ápice da forma física e outros elementos que, juntos, conceituam o "produto da indústria cultural". Mas Peixe Grande, de Tim Burton, a partir do texto de Daniel Wallace, é realmente singular. Ele retoma, com ingenuidade pungente, aquilo que desde Walter Benjamin e seu "O narrador", somos conscientes de esquecer: a atividade de contar histórias e a força das narrativas.
Que a ingenuidade da qual falara não sirva de obstáculo; ao contrário, deve ser estímulo. A trama, por vezes desgastada, do pai-que-conta-histórias-ao-filho é aqui elevada a outro plano. A mania - quase ao sentido grego - do pai em contar histórias e sua constante fusão delas com a realidade, acaba por irritar o filho, já moço e recém-casado, a ponto de distanciá-lo quase que definitivamente. Entretanto, por conta de algumas contingências, destas que em toda boa história são necessárias, o filho-homem submerge na vida pregressa do pai e, por conseguinte, em seu universo fabuloso, quase mítico, que coloca em xeque o papel que a própria noção de Real desempenha na existência: esta chega quase a sucumbir nas cenas da premente morte do pai que, solenemente a ignora porque em determinada narrativa sobre seu passado, tivera a oportunidade de ver o modo que partiria da vida e podia armar-se então da convicção de que este não era seu final. A idéia de existência-fábula reforça então aquela do existente auto-engendrado de algumas filosofias do século XX, mas pelo viés do narrador, que não tenta dominar à força o curso da narrativa com uma responsabilidade angustiante mas, ao contá-la, dança com seus ouvintes no diálogo que culmina em beleza e maravilhamento. Com final singelo e primoroso, Peixe Grande alcança, ele mesmo, o status de narrativa capaz de instigar os sentidos e o pensamento.
Veja a ficha completa do filme aqui.
GF.
Que a ingenuidade da qual falara não sirva de obstáculo; ao contrário, deve ser estímulo. A trama, por vezes desgastada, do pai-que-conta-histórias-ao-filho é aqui elevada a outro plano. A mania - quase ao sentido grego - do pai em contar histórias e sua constante fusão delas com a realidade, acaba por irritar o filho, já moço e recém-casado, a ponto de distanciá-lo quase que definitivamente. Entretanto, por conta de algumas contingências, destas que em toda boa história são necessárias, o filho-homem submerge na vida pregressa do pai e, por conseguinte, em seu universo fabuloso, quase mítico, que coloca em xeque o papel que a própria noção de Real desempenha na existência: esta chega quase a sucumbir nas cenas da premente morte do pai que, solenemente a ignora porque em determinada narrativa sobre seu passado, tivera a oportunidade de ver o modo que partiria da vida e podia armar-se então da convicção de que este não era seu final. A idéia de existência-fábula reforça então aquela do existente auto-engendrado de algumas filosofias do século XX, mas pelo viés do narrador, que não tenta dominar à força o curso da narrativa com uma responsabilidade angustiante mas, ao contá-la, dança com seus ouvintes no diálogo que culmina em beleza e maravilhamento. Com final singelo e primoroso, Peixe Grande alcança, ele mesmo, o status de narrativa capaz de instigar os sentidos e o pensamento.
Veja a ficha completa do filme aqui.
GF.

