Instituto Hypnos

segunda-feira, maio 29, 2006

Futebolização da Vida.


Deixa eu falar logo antes que me acusem de oportunista: a Copa nem começou mas já estou farto do ufanismo tolo e da sobrecarga futebolística.

1) Chega ser irritante à alma a exposição exaustiva da retina às cores verde e amarelo. Não quero engrossar os comentários já clássicos em relação ao súbito patriotismo pelo qual o povo brasileiro é acometido quando das competições esportivas, sobretudo de futebol. Entretanto, causa pânico o estado a que chegam as pessoas ao assumirem um tom quase apologético nas manifestações de amor ao país. Causa pânico pra não dizer pena. Certo estava Pascal com sua análise do divertissement sem o qual somos obrigados a encarar nos olhos o peso da existência, que aqui poderia ser trocado pela proposição "peso da existência em terra brasilis".

2) Mas, segundo aquele nobre pensador já conhecido de todos, nada é tão ruim que não possa piorar. E existe a mídia. E existem alguns órgãos de imprensa que nos brindam com cadernos como "Futebologia 1" (sim, provavelmente vai ter o 2) da Folha de São Paulo do domingo, dia 28, desacreditando "ingênuos", como Guimarães Rosa, Graciliano Ramos ou ainda Lima Barreto, que não tiveram a sagacidade e, por que não dizer, a inteligência de ver no esporte bretão em seu início por aqui, a sabedoria quase metafísica que irrompe daqueles homens diletos correndo atrás de uma esfera de couro ou ainda os velhos clichês sobre as propriedades catárticas do espetáculo.

Mas vocês acham que isso é o fim? Também tolos são vocês, ou não sabem do que a ardilosa mente do homo jornalisticus é capaz? Na última página do tal caderno, somos brindados com o encontro explosivo - e pretensamente fecundo - da filosofia com o futebol, de onde brotam pérolas tendo como subtítulos: "A torcida ou: Primeiro Motor", "Quem não faz toma ou: O Eterno Retorno do Mesmo" pra não dizer do duplamente infeliz "Futebol de Resultados ou: A Razão Instrumental": penso que Horkheimer adoraria ver sua expressão saindo das imprensas a serviço da indústria cultural... Tudo obviamente, desde o início, redimido pelo espírito matreiro de nossa incontestável paixão pelo futebol que pode aplainar qualquer discurso ou qualquer pretensão de seriedade que agora é vista como mau-humor, ou, pra ficar na chave de tal opúsculo: como consciência infeliz.

GF

PS: Antes que alguém me acuse de ter omitido as citações de Camus contidas no caderno, já alerto que em nenhum de seus ensaios filosóficos o futebol aparece como pressuposto antropológico.